quinta-feira, 25 de outubro de 2007

“ ..quando a saudade chegar com seu batalhão de atiradores...”

Photo by Paulo Davi

Saudade daquele vento à beira mar e do barulhão que faz nas orelhas.Que por mais frio que estivesse nunca congelava os ossos, diferente do que faz o vento polar dessas terras ao sul. Saudade da areia da praia massageando os meus pés, do barulho das ondas, da cor de lá, as risadas de lá, as pessoas de lá...
Ai!....essa saudade vaga-lume, saudade soluço que vem quando eu menos espero, me da um soco, me causa uma dor intensa e de repente se dissipa.Eu me distraio com alguma coisa, esqueço que não quero esquecer e o passado volta para lá, me deixa em paz por algum tempo. Não demora, volta aquela sensação de que estou esquecendo alguma coisa.É a mesma impressão que nos assalta quando estamos saindo atrasados de casa e começamos a conferir se pegamos tudo o que vamos precisar... “chave de casa, chave do carro, os documentos, cigarro, isqueiro....putz! Tá tudo aqui,mas to sentindo que falta alguma coisa!Merda!”.Já não há tempo para voltar e procurar, ou ficar parado,esperando lembrar.A única saída é arriscar dar conta do que seja, na rua, e se for uma coisa muito importante será um belo transtorno.
È assim que o passado me volta, começo a lembrar do que esqueci. Daí, me voltam os rostos, os cheiros, os sons, as cores, os carinhos, os risos, amores, saudade, saudade, saudade sem fim. Ela me sufoca, tenta me afogar, estrangular minha alegria, me enlouquecer por algumas horas...e depois passa, volta p dentro desse armário da quarta dimensão do meu quarto.
E eu sempre penso que aprendi a não sofrer, a não ficar vulnerável a isso, que ela não me pegará mais desprevenida. Pois é só tapar a respiração, beber água de cabeça para baixo, encher os pulmões de ar 3 vezes e esvazia-lo e contar até 20, tomar coca-cola, levar um susto, plantar bananeira....
Perda de tempo! Ela sempre volta,mesmo....

domingo, 21 de outubro de 2007

Sanativo

Depois de um abraço sem vontade, um até amanhã opaco, peguei meu ônibus vermelho e voltei para minha casa na árvore. Trouxe na bolsa aquela peça estranha que assistimos, o meu malboro companheiro, o isqueiro que roubei distraidamente e a nova decepçãozinha em forma de alfinete me furando a pele.
Sentada, olhando os prédios passando pela janela, pensei em chorar, mas mudei de idéia.Só uma lágrimazinha ridícula, teimosa, insistiu em escorrer. Não consegui impedi-la de me denunciar. Pelo menos, ninguém percebeu.
Vim, durante todo o percurso listando mentalmente os meu enganos. Percebi que foram muitos e esse provavelmente é só mais um deles. Sempre doem, arranham, incomodam, mas não matam, disso eu tenho certeza. E os arranhões, eu curo com álcool, de preferência vinho ou vodka, que é pra não inflamar. É mais eficaz do que lamber feridas, o que fiz durante muito tempo.
Agora,vou até a cozinha, preparar mais uma dose, fumar um cigarro....Seguir o procedimento necessário para o tratamento.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

meus dias


E um dia nunca é igual ao outro. O sol até nasce mais ou menos no mesmo lugar, mas não ilumina do mesmo jeito as ruas, as minhas idéias. Há os dias em que ele insiste em me abandonar e o frio toma conta,congela tudo aqui dentro.
Abri a janela, o céu estava até bonito, a horta do sitio vizinho está verdinha...dá até vontade de comer alface. È, minha janela dá para um sítio,com direito a pangarés pastando, horta, casinha com varanda e uns pés de alguma fruta que ainda não tenho certeza do que é. Deve ser tangerina (mimosa, como falam aqui).
A rua é meio parada,parece cidade de interior. Na esquina tem uma barraquinha de cachorro-quente de um careca bonitão que se veste como um chef francês.Passo por ele ,pelo menos ,umas duas vezes por dia. Pego ônibus no terminal,perto de casa, parece uma rodoviária, muita gente, muito ônibus, uns botecos sujos, uns trogloditas bêbados, algumas lojas de roupa,salão de cabeleireiro. Aqui não tem muito menino de rua, quase não vejo. Vejo mais velhinho pedindo na rua...
Demoro uns trinta minutos para chegar ao centro. Adoro ir ao centro da cidade.Arranjo qualquer desculpa,só para andar por aquelas ruas e me sentir num vídeoclip bobo,qualquer.
Mas um dia,nunca é igual ao outro....

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

AH! esses ponteiros...

Essa merda desse relógio não me deixa em paz! Esse tic-tac infernal, vai acelerando o compasso dentro do meu peito....Como se não bastasse a dificuldade em acompanhar os ponteiros do mundo real, vem o imbecil horário de verão me confundir ainda mais.
Tenho um problema, uma espécie de dislexia quântico-temporal. Não consigo me sintonizar ao tempo desse mundo. Não consigo levar os calendários e relógios à sério. Não adianta, eu e os segundos ,digitais ou analógicos, estamos sempre fora de sincronia.
Isso tem me consumido....
Puta merda! Já to atrasada, por falar nisso....

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

CORES

Criaturas estranhas,as fadas. Despertam uma coisa maluca na gente, um numseioque de medo, encanto, tara e curiosidade. Aparecem do nada, com aquele olhar de quem não está prestando muita atenção,mas enxergam tudo o que há dentro da gente.
Foi no primeiro dia de primavera que ouvi o zunido das asas, vi as cores se espalhando no ar com aquele pozinho mágico que ela trazia na bolsa e lançava por onde ia passando. Fiquei parada, sem saber direito o que fazer,olhando aquele ser onírico se aproximar sorrindo. Esse meu coração bobo, já foi logo se anunciando, disparado, querendo atropelar as palavras, quase não consegui dizer “oi”.Ela desceu ,me olhou de perto e resolveu andar um pouco ao meu lado. Gradativamente ,meu pulso foi se acalmando. A voz era suave, nem parecia passar pelos meus tímpanos, me invadia pelos poros. Um cheiro vermelho alaranjado, um sorriso doce, olhar rasgado, entre o angelical e o debochado são as ultimas imagens que me lembro.E o meu mundo que andava monocromático, ganhou um colorido novo.Transformou-se em aquarela vibrante, recheada de vermelho, amarelo, rosa e muito azul. A música voltou a soar. Tambores e flautas lambem minha nuca ,antes de entrar pelas orelhas. As saias giram, os corpos suam, os músculos tremem. O prazer inunda a vida,arranhando as costas e explodindo dentro de mim. As estrelas voltaram a habitar os meus olhos e um sorriso instalou-se em meus lábios.
Volto a conjugar verbos que estavam trancados numa gaveta empoeirada. Aos poucos, vou redescobrindo o conforto do plural feliz e me livrando daquele singular solitário que escurecia a existência. Não faço idéia de quanto tempo estivemos caminhando juntas.Não sei que data é hoje, ou como vim parar aqui...Vou deixar a janela aberta! Pode ser que ela resolva voltar